Somos mesmo antimanicomiais?

Para marcar o dia 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, o Esquizografias, um coletivo de escrita formado por um só corpo e seus outramentos (por Deivison Miranda), publicou um texto em duas partes na sua página do Instagram (@esquizografias). Em função das significativas reflexões levantadas nesta escrita, reproduzimos, na íntegra, o texto compartilhado no dia 18/05/2021.


Gritemos todos “POR UMA SOCIEDADE SEM MANICÔMIOS”

Vamo lá galera, abraça os doidinho no dia 18 de maio e fala “Nenhum passo atrás, manicômio nunca mais!”

Toca Maluco Beleza de Raul

“Somos todos Basaglianos!”

Isso que fazemos, não é!?

Afinal somos Militantes da Luta Antimanicomial.

Queremos acabar com os manicômios, mas quais manicômios destruímos?

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Trata-se de ratificar um processo tão complexo em meio a tempos de retrocesso por todos os lados.

Digo retrocesso por todos os lados, pois as Comunidades Terapêuticas (Manicômios Gourmetizados) foram forçosamente colocadas num plano primordial no cuidado com as drogas, o Programa De Braços abertos na Cracolândia foi substituído por uma lógica truculenta da Polícia Militar de São Paulo que volta a tratar as drogas como caso de polícia e não como caso de Saúde.

Retrocesso porque em pleno século XXI há hospitais praticando eletrochoque e lobotomia às claras luzes de uma sociedade que defeca com a boca “Direitos Humanos para Humanos Direitos”. Como a sociedade (normativa, utilitarista, produtivista) valora a Loucura como Desrazão e o louco como um insano (logo, não como um humano direito), para estes não há Direitos Humanos.

Indubitavelmente, Foucault foi o principal autor a pensar a estratégia disciplinar das instituições de confinamento, das quais os manicômios despontam como uma das mais mortíferas.

Nesse sentido, as experiências de Reforma Psiquiátrica no mundo reagiram às suas maneiras (Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Espanha e Brasil se destacaram nesse processo).

No que diz respeito ao Brasil, surgiu um lema “Por uma Sociedade Sem Manicômios” numa luta essencial pelo fechamento dos Hospitais Psiquiátricos, espaços de práticas de violência, morte, sujeição. A lembrar das fortes imagens do Campo de Concentração/Hospital de Barbacena.O fechamento dos Hospitais Psiquiátricos e a substituição por uma Rede de Atenção Psicossocial (de base comunitária, pautada na autonomia, na liberdade) é indubitavelmente um dos passos mais importantes no âmbito da Reforma Psiquiátrica Brasileira, tendo em vista o insistente grande número de hospitais psiquiátricos e, recentemente, o crescente número de “comunidades terapêuticas” (nem comunidades, nem terapêuticas) para usuárias(os) de drogas.

No entanto para além do fechamento dos hospitais psiquiátricos (como manicômios molares na dureza do lugar, da sua institucionalização rígida, engessada), é preciso pensar nas manicomialidades do manicômio molecular que atravessa todo e qualquer serviço (e suas instituições) mesmo aquelas que se propõem libertar os/as loucos/as, atravessa também corpos e desejos, discursos e práticas.

A discussão a ser tecida visa problematizar os nós, as capturas presentes nos novos moldes e não uma tentativa impensada de fazer um ode ao passado ou reforçar retrocessos.

Pensemos na discussão tecida por Deleuze acerca da Sociedade de Controle ao estudar Foucault e sua Sociedade Disciplinar.

O hospital psiquiátrico (manicômio molar) como toda grande instituição cumpre seu papel panóptico de concentrar, vigiar, disciplinar, enquadrar tinha como nítido objetivo fazer morrer e deixar viver, alocava-se perfeitamente nos moldes da Sociedade Disciplinar.

"FECHAMOS OS MANICÔMIOS, VIVA!"

Viva mesmo!

Só quem esteve dentro de um hospital, sabe como ele carrega a morte em seu chão, suas paredes e teto.

Com o fechamento dos manicômios molares, cabe questionar os manicômios moleculares, aqueles que nos habitam e reproduzimos em práticas e discursos de tutela, sujeição e normatividade.

Porém a noção de liberdade no CAPS pode ser um engodo ao pensar que na Sociedade de Controle não é preciso paredes para controlar, pois o pastoreamento dos corpos produz controle ao ar livre, no âmbito das linhas ramificadas das relações interpessoais, de desejo.

Seres que carregam o panóptico na barriga se ocupam por controlar os corpos da loucura, subtraindo-lhe as forças disruptivas em nome de um modo de funcionamento previsiível (que produz, consome e não resiste)

“Tá muito agitado! Tá tomando remédio?”

Quanto mais dopado o corpo está, menos risco ele oferece a quem não sabe lidar com a possibilidade do imprevisível. Há tempos governar é buscar evitar constantemente o imprevisível.

Quem faz da imprevisibilidade do acontecer uma ameaça, produz um acontecido através de capturas micromanicomiais que vão desde o corte na fala, à obrigação de participar de uma oficina para não ficar rondando, o aumento da medicação quando a medicação não dopa/adestra/controla o usuário.

Além de gritarmos Por uma sociedade sem manicômios no dia 18 de maio, precisamos nos questionar “Já me libertei do meu manicômio?” “estou sendo manicomial?” “Há práticas manicomiais no local onde trabalho? E na família? E nos grupos?”

Esses questionamentos precisam constituir uma cartografia constante dee mapeamento de linhas de força, desejo, poder que circulam nos diversos espaços, inclusive naqueles que supõem ter substituído o manicômio molar. Cartografar para superar não apenas lógica bio-necropolítica do Manicômio Molar que produz vidas precárias que apenas sobrevivem e também morte (simbólica, cultural, desejante, material), mas também os manicômios moleculares que fazem funcionar manicomialidades que produzem e reproduzem o modus operandi manicomial mesmo ao ar livre.

Esse controle não é apenas repressivo, mas produtivo!

Não se prende em correntes, mas se produz uma vida presa ao diagnóstico como fechamento de siNão é como uma carteirinha registrada de identidade militante e por vezes de militonto (como diria o Frei Betto).

Não se é antimanicomial no discurso, militar é agir (diria Guattari).

É preciso afinar discurso e fala, não adianta se dizer antimanicomial e se colocar em um grau de superioridade hierárquica (ainda que se vomite a palavra horizontalidade) em relação ao usuário ou “paciente” como queiram chamar.

O processo de tornar-se antimanicomial é incessante e tem no fechamento dos manicômios molares o aspecto mais basilar.

É nesse campo que é preciso diferenciar desinstitucionalização de desospitalização

Precisamos desinstitucionalizar nossos corpos, nossa prática, abrir o corpo ao encontro, tirar os jalecos brancos da superioridade e fechar todos os dias os manicômios que carregamos nos nossos corpos, nas nossas intervenções e técnicas.

Porque gritar Viva a Diferença e só enxergar "diferente a se tornar homogêneo" é patinar no gelo em círculos, é preciso produzir, respeitar e desejar a diferença!

É só resistindo ao manicômios em nós...

É só afirmando um tornar-se antimanicomial em uma via de criação-destruição de práticas, lógicas, discursos e desejo-de-manicômio (mesmo aqueles fantasiados de liberdade)

Que construiremos uma SOCIEDADE SEM MANICÔMIOS!

Esse controle não é apenas repressivo, mas produtivo!

Do louco amarrado em correntes, produz-se louco acorrentado no uso EXCESSIVO do psicotrópico, do louco preso no hospital se faz o louco que “todo dia acorda, vai pro caps, come, toma remédio, vai pra casa, toma remédio, dorme, acorda, vai pro caps...” fazendo a música Cotidiano de Chico assumir um tom fúnebre dos mortos-vivos que foram feitos os loucos.

Assim, é preciso acabar com os manicômios, mas também com as manicomialidades.

Modulações, linhas, relações de forças de poder que circulam, contornam e dão corpo às relações e que engendram processos instituídos nos serviços, mesmo naqueles substitutivos.

Fazer ruir a lógica pautada na cura, na dicotomia normal-louco, na categorização da loucura como Doença Mental e na adaptação do louco a uma sociedade dita normal, que tem produzido morte em série.


Ouso a afirmar:

Ninguém É antimanicomial!


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